quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma nota insignificante


Olhei para cima e pensei: como são belas as folhas das árvores, a reflectir a luz do céu, que reflecte a luz da cidade (e que egocêntrica sou eu que escrevo sempre na primeira pessoa). E realmente, como são belas as folhas reluzentes, como uma massa viva que dança na noite... mas não paro. E quero parar? Nem sei... Se parasse a ver as folhas das árvores num jardim escuro e tão clandestinamente sinuoso, não estaria a ser ridícula? E pergunto-me para quem tenho medo de parecer tola, e tenho medo que a resposta já não sejam "os outros". Já não é o julgamento deles que eu temo, é o meu. E já não sei (novamente, eu), como é que me tornei nos outros. Porque é que caminho apressada para casa, para dormir, para acordar, para trabalhar, para caminhar apressadamente, sem parar despropositadamente, porque é um desperdício de tempo. Mas tempo para quê? (Diria a minha mãezinha que ridículo é eu perder tempo a pensar nisto - e no entanto, eu penso. Será mais uma daquelas coisas que se desvanecem com o tempo?) Quem é que pensa isto, eu, ou os outros?

As folhas das árvores lembram-me que há uns anos eu parava na rua para olhar para as folhas das árvores a cambalearem ao vento. E elas continuaram ali, mas eu não. Como é que me tornei um deles? E suando foi que eles se transformaram, como eu, nos outros?

Agora não há tempo - é tarde, é rizível perder tempo com algo tão insignificante como folhas ao vento, ou escrever sobre folhas ao vento. (Passa os passos pesados de um homem e eu estremeço, é tarde, e afinal sempre abrandei o passo a olhar para as árvores). Não seria ridículo, penso, perder este tempo com um homem. Ninguém acharia anormal atrasar-me por paixão, por sexo, por romance. Atrasar-me porque tinha trabalho para fazer. Isso sim, é tempo útil. Porque tempo é dinheiro. E dinheiro, não compra tempo, mas compra qualidade de tempo. De preferência, com o tal homem. Quem é que quer saber das folhas das árvores e das minhas divagações sobre elas?

Mas daqui a algum tempo, também eu lerei com desdém quem escreve sobre coisas tão insignificantes. Por isso, mais vale aproveitar agora.

Abraço, B.
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